[{"id":9368,"date":"2024-06-06T18:02:54","date_gmt":"2024-06-06T22:02:54","guid":{"rendered":"https:\/\/portal.independentmediainstitute.org\/?p=9368"},"modified":"2024-06-06T18:03:47","modified_gmt":"2024-06-06T22:03:47","slug":"era-uma-vez-o-lixo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.independentmediainstitute.org\/pt-br\/2024\/06\/06\/era-uma-vez-o-lixo\/","title":{"rendered":"Era uma vez o Lixo"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><b>Foto: <\/b><a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1gZa_RJkIWjwfT-AnyBTszTzvafrA9yyo\/view?usp=sharing\"><span style=\"text-decoration: underline;\">https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1gZa_RJkIWjwfT-AnyBTszTzvafrA9yyo\/view?usp=sharing<\/span><\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No mundo contempor\u00e2neo, a produ\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o de res\u00edduos, vulgo lixo, representa um dos desafios mais prementes que enfrentamos. Por um lado, n\u00e3o queremos abdicar de uma vida cada vez mais consumista, mas por outro, temos problemas em lidar com os restos desse consumo. O destino do nosso lixo tem enormes implica\u00e7\u00f5es na sustentabilidade dos ecossistemas e consequentemente no nosso bem-estar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Este problema global, que vai desde aterros\u00a0 a transbordar at\u00e9 oceanos asfixiados por pl\u00e1sticos, exige solu\u00e7\u00f5es colectivas para as quais os contributos da ci\u00eancia e da tecnologia s\u00e3o essenciais, mas tamb\u00e9m uma reavalia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica dos nossos h\u00e1bitos individuais de utiliza\u00e7\u00e3o e descarte dos despojos dos nossos dias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 preciso mudar comportamentos e, nesse processo, antecedido de reflex\u00e3o, talvez uma viagem no tempo em torno do lixo seja de alguma utilidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Os restos materiais do nosso passado podem, muitas vezes, ser chamados de lixo. A sua defini\u00e7\u00e3o em contextos muito antigos inclui restos materiais org\u00e2nicos e inorg\u00e2nicos cuja forma de abandono est\u00e1 relacionado com ciclos culturais, sociais e econ\u00f3micos de fabrico, distribui\u00e7\u00e3o, utiliza\u00e7\u00e3o, consumo e descarte.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Aqui entra a Arqueologia, disciplina cient\u00edfica essencialmente dedicada a descobrir o significado do que foi outrora descartado. Ao analisar cuidadosamente os vest\u00edgios de atividades passadas, os arque\u00f3logos procuram compreender o comportamento humano e os padr\u00f5es de transforma\u00e7\u00e3o cultural ao longo do tempo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Acreditem que as nossas meticulosas escava\u00e7\u00f5es de, por vezes literalmente, antigos montes de lixo oferecem uma janela fascinante para a vida das comunidades de outrora. S\u00e3o os materiais abandonados h\u00e1 mil\u00e9nios que nos aproximam do que poderia ter sido o quotidiano dessas pessoas, a sua economia, organiza\u00e7\u00e3o social e at\u00e9 mesmo as suas cren\u00e7as.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 uma falta geral de consci\u00eancia sistem\u00e1tica sobre a natureza do lixo. Muitas vezes, as pessoas descuram o lixo que geram diariamente, bem como as suas implica\u00e7\u00f5es. Aplica-se aqui o velho ditado \u201clonge da vista, longe do cora\u00e7\u00e3o\u201d. Um dos principais desafios na educa\u00e7\u00e3o das pessoas sobre o lixo, \u00e9 que ele \u00e9 ub\u00edquo, mas muitas vezes passa despercebido. E ele diz muito sobre n\u00f3s, no passado e no presente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">William Rathje, arque\u00f3logo americano, tornou-se pioneiro num nicho de conhecimento apelidado de Garbology em ingl\u00eas, que numa grosseira tradu\u00e7\u00e3o seria Lixologia. Na d\u00e9cada de 70 iniciou, com um olhar arqueol\u00f3gico, o projeto \u201cLixo do Tucson\u201d e, analisando o lixo das pessoas, descobriu pormenores bem interessantes sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o comportamento humano e a gest\u00e3o dos seus res\u00edduos. Rathje notou uma discrep\u00e2ncia entre o que as pessoas dizem de si mesmas e dos seus actos e a realidade. Por exemplo, enquanto muitos afirmavam consumir muitas frutas e vegetais, os seus restos contavam outra hist\u00f3ria. Da mesma forma, muitas vezes havia uma lacuna entre a quantidade de reciclagem que as pessoas diziam fazer e a que o seu lixo indicava. Acredito que, mesmo d\u00e9cadas volvidas, haver\u00e1 atualidade nestas observa\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas regressemos ao passado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">At\u00e9 ao aparecimento de sociedades com escrita, talvez 90% do que os arque\u00f3logos escavam, documentam e estudam \u00e9 essencialmente o que foi considerado in\u00fatil \u2013 artefatos de pedra partidos ou desgastados, subprodutos da produ\u00e7\u00e3o de ferramentas, cer\u00e2mica fragmentada, restos de alimentos, vidro partido, metais corro\u00eddos, e assim por diante. Em suma, restos materiais que n\u00e3o tinham mais utilidade, e que as sociedades n\u00e3o conseguiram reintegrar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em \u00e9pocas em que prevalecia um estilo de vida n\u00f3mada, o problema dos restos, incluindo mat\u00e9ria org\u00e2nica, representava desafios m\u00ednimos para os grupos humanos e tinha pouco impacto no ambiente. Nestas \u00e9pocas, por vezes, \u00e9 at\u00e9 dif\u00edcil distinguir o que seriam os restos provocados por humanos, ou restos de outros animais, nomeadamente carn\u00edvoros que tamb\u00e9m ocupavam grutas. Contudo, o movimento constante dessas popula\u00e7\u00f5es significava que o lixo era menos concentrado e tinha mais oportunidade de se decompor naturalmente, reduzindo o seu impacto a quase nada. N\u00e3o havia pegada ecol\u00f3gica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 importante notar que ent\u00e3o a reutiliza\u00e7\u00e3o seria uma pr\u00e1tica comum, especialmente entre as comunidades tardias de ca\u00e7adores-coletores, que reaproveitavam materiais inclusive para constru\u00e7\u00e3o. Vejam-se as impressionantes cabanas constru\u00eddas h\u00e1 cerca de 15 mil anos com ossos de Mamute na Europa Central, nomeadamente no territ\u00f3rio da Ucr\u00e2nia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">De facto, durante milhares de anos, os nossos antepassados deixariam os restos de comida e materiais inutiliz\u00e1veis onde viviam. No entanto, mesmo na Pr\u00e9-Hist\u00f3ria mais antiga, podemos discernir, atrav\u00e9s da distribui\u00e7\u00e3o espacial dos restos, que j\u00e1 existia uma deposi\u00e7\u00e3o estruturada do lixo, colocado deliberadamente longe das principais \u00e1reas de habitat.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Podemos ver um exemplo deste comportamento na Cueva de El Mir\u00f3n, em Espanha, onde os arque\u00f3logos descobriram uma acumula\u00e7\u00e3o invulgar de ossos enegrecidos numa \u00e1rea isolada da gruta. Estes ossos, pertencentes a v\u00e1rios animais, sugerem que h\u00e1 cerca de 13.000 anos os habitantes deste local separavam deliberadamente restos de comida e ossos, estes \u00faltimos tornando-se negros devido \u00e0 decomposi\u00e7\u00e3o. Os vest\u00edgios estudados parecem indicar que eles ocupavam sazonalmente a principal c\u00e2mara da gruta e a mantinham limpa movendo sistematicamente o lixo acumulado para uma \u00e1rea de despejo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Estes vest\u00edgios pertencem ao final do Paleol\u00edtico Superior, \u00e9poca a que remonta a domestica\u00e7\u00e3o do c\u00e3o. Entre os v\u00e1rios benef\u00edcios que nos trouxeram estes nossos amigos, os c\u00e3es ter\u00e3o desempenhado um papel significativo no consumo de res\u00edduos org\u00e2nicos, impedindo assim a sua decomposi\u00e7\u00e3o dentro dos espa\u00e7os habitacionais. A presen\u00e7a de c\u00e3es pode ter ajudado a manter os acampamentos mais limpos e higi\u00e9nicos, reduzindo a acumula\u00e7\u00e3o de res\u00edduos org\u00e2nicos e os riscos associados \u00e0 sua decomposi\u00e7\u00e3o, como a atra\u00e7\u00e3o de predadores ou a propaga\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas um exemplo mais pr\u00f3ximo de n\u00f3s s\u00e3o os concheiros, estruturas acumulativas compostas por restos de ossos e conchas, de uma \u00e9poca chamada Mesol\u00edtico, desde h\u00e1 cerca de 7500 mil anos. Encontramo-los entre o Tejo e o Sado e n\u00e3o eram apenas habitats, eram tamb\u00e9m locais de enterramentos funer\u00e1rios. Existem em muitas partes do mundo e alguns devido \u00e0 sua enorme dimens\u00e3o, s\u00e3o considerados marcadores territoriais. S\u00e3o exemplo disso os Sambaquis brasileiros. Segundo alguns arque\u00f3logos, poderiam ser vistos como uma forma antr\u00f3pica de ritualizar a paisagem, ou por outras palavras, uma monumentaliza\u00e7\u00e3o do lixo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Talvez nestes locais, pelas suas caracter\u00edsticas, tenham surgido os primeiros problemas sanit\u00e1rios. No entanto, nesta \u00e9poca os grupos humanos eram semi-n\u00f3madas, ainda se moviam regularmente, realizando uma esp\u00e9cie de reciclagem territorial. Esta mobilidade ajudava a mitigar os potenciais problemas causados pela acumula\u00e7\u00e3o de restos org\u00e2nicos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Viajemos ao continente americano. Nos Estados Unidos, um exemplo curioso de gest\u00e3o estrat\u00e9gica do espa\u00e7o pode ser observado nos Everglades, onde as acumula\u00e7\u00f5es de lixo do passado possivelmente desempenharam um papel crucial. Estas ilhas, agora uma reserva ecol\u00f3gica vital, podem ter sido intencionalmente formadas atrav\u00e9s da acumula\u00e7\u00e3o de res\u00edduos de ocupa\u00e7\u00f5es humanas iniciadas na Pr\u00e9-Hist\u00f3ria e continuadas durante milhares de anos. Estas acumula\u00e7\u00f5es, compostas de restos de peixe, conchas, ossos, cer\u00e2mica, artefactos de pedra, n\u00e3o s\u00f3 facilitaram a habita\u00e7\u00e3o dessas \u00e1reas criando eleva\u00e7\u00f5es semelhantes a ilhas, mas tamb\u00e9m provavelmente alteraram a qu\u00edmica do solo, tornando-o mais apetec\u00edvel para v\u00e1rias esp\u00e9cies de plantas e animais. A acumula\u00e7\u00e3o de restos levou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de novos habitats para plantas, animais e humanos. Em particular, o descarte de ossos contribuiu para o desenvolvimento de solos ricos em f\u00f3sforo e, portanto, mais f\u00e9rteis.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 um exemplo de como o lixo foi integrado nas estrat\u00e9gias de ocupa\u00e7\u00e3o espacial, e de um significativo impacto humano sem consequ\u00eancias negativas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O in\u00edcio da domestica\u00e7\u00e3o de plantas e animais, per\u00edodo chamado Neol\u00edtico que se iniciou h\u00e1 cerca de 10 mil anos em algumas zonas geogr\u00e1ficas, foi marcado pela transi\u00e7\u00e3o para um estilo de vida sedent\u00e1rio e, talvez, ent\u00e3o come\u00e7assem as primeiras crises de lixo na nossa hist\u00f3ria. Viver permanentemente num local e em grandes grupos de pessoas, muito mais numerosas do que anteriormente, levou \u00e0 necessidade de uma gest\u00e3o controlada de res\u00edduos. Assim, come\u00e7aram a surgir solu\u00e7\u00f5es para os crescentes restos, como preenchimento de fossas e silos e at\u00e9 mesmo a cria\u00e7\u00e3o de locais espec\u00edficos para a sua acumula\u00e7\u00e3o longe das \u00e1reas residenciais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas avancemos no tempo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">As primeiras lixeiras surgem em Atenas. Os gregos passaram a cobrir o lixo com camadas de terra e criaram, em 500 a.C., o que hoje chamamos de aterros controlados, mas naquela \u00e9poca o lixo era composto basicamente por restos de comida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na antiguidade cl\u00e1ssica temos o claro in\u00edcio de uma dualidade pr\u00f3pria do lixo e dos dejectos: o necess\u00e1rio afastamento, e mesmo receio e rejei\u00e7\u00e3o, por um lado, e aceita\u00e7\u00e3o da sua utilidade, por outro. S\u00e3o in\u00fameros os exemplos que indicam como os dejectos e o lixo org\u00e2nico produzidos nas cidades da Antiguidade foram usados na agricultura.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na mitologia grega encontramos inclusive uma express\u00e3o dessa dicotomia: as fezes acumuladas nas estrebarias do rei Augias s\u00e3o um problema a ser resolvido pelo lend\u00e1rio H\u00e9rcules. O trabalho de H\u00e9rcules consiste em desviar o curso do rio Alfeu para dentro dos est\u00e1bulos, removendo o estrume para os campos que s\u00e3o, assim, fertilizados para a agricultura. Da\u00ed ser H\u00e9rcules o patrono da limpeza urbana na antiga Gr\u00e9cia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por volta de 320 a.C., Atenas tinha j\u00e1 delibera\u00e7\u00f5es sobre limpeza p\u00fablica. A cidade possu\u00eda uma \u201cpol\u00edcia de rua\u201d \u2013 os chamados Astynonen, que se ocupavam das normas e alinhamento das constru\u00e7\u00f5es, abastecimento de \u00e1gua e limpeza p\u00fablica da cidade. A eles estavam subordinados os Koprologen, que limpavam as ruas e recolhiam dejectos e os deviam transportar a uma dist\u00e2ncia de pelo menos 10 est\u00e1dios (cerca de 1920m) para fora dos muros da cidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na \u00e9poca romana era frequente a constru\u00e7\u00e3o de silos, lixeiras e aterros em \u00e1reas n\u00e3o urbanizadas, localizadas no entorno das cidades. Desde os prim\u00f3rdios do Imp\u00e9rio, as administra\u00e7\u00f5es romanas obrigavam a que os habitantes depositassem os res\u00edduos em \u00e1reas extramuros, de forma a que os aterros se distanciassem da popula\u00e7\u00e3o, nos lugares conhecidos como estercolaris.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m implementaram o sistema de recolha agrupada, atrav\u00e9s do uso do carrus estercolari (carros de lixo).\u00a0 Estes percorriam as ruas retirando os res\u00edduos que depositavam nos puticulum, dep\u00f3sitos de compostagem, situados fora da cidade. Em algumas ocasi\u00f5es, os stercorari eram acompanhados por porcos que ajudavam na limpeza, especialmente com o lixo org\u00e2nico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Roma, com o seu estimado milh\u00e3o de habitantes, desenvolveu um robusto sistema de limpeza p\u00fablica, sendo famosa a sua Cloaca M\u00e1xima, isto \u00e9 o esgoto, que desembocava no rio Tibre.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ao longo da sua exist\u00eancia, os humanos sempre geraram res\u00edduos, mas at\u00e9 ao fim do per\u00edodo em que a agricultura prevaleceu, o impacto ambiental deste lixo era localizado, afetando apenas \u00e1reas limitadas. Este impacto localizado permitia que os processos naturais de purifica\u00e7\u00e3o e inertiza\u00e7\u00e3o funcionassem eficazmente, sem causar significativos problemas ambientais e sanit\u00e1rios (numa perspectiva global, j\u00e1 que nas cidades ocorriam problemas sanit\u00e1rios).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A grande mudan\u00e7a no impacto do lixo ocorreu com a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, seja pelos res\u00edduos da industrializa\u00e7\u00e3o, seja pelo exponencial crescimento das cidades. Mas essa \u00e9 outra hist\u00f3ria. Antes disso, as estrat\u00e9gias empregadas para lidar com o lixo focavam-se em solu\u00e7\u00f5es de baixa energia e na utiliza\u00e7\u00e3o eficiente de recursos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Naturalmente que n\u00e3o proponho que regressemos a \u00e9pocas pr\u00e9-industriais e \u00e9 obvio que estas solu\u00e7\u00f5es antigas n\u00e3o s\u00e3o diretamente aplic\u00e1veis a todos os problemas modernos de res\u00edduos, mas elas destacam princ\u00edpios importantes que acredito serem valiosos para n\u00f3s. Al\u00e9m da reciclagem, h\u00e1 uma necessidade de refor\u00e7ar a reutiliza\u00e7\u00e3o das coisas quotidianas, alterar e reduzir o consumo e de organizar sistemas, inclusive dom\u00e9sticos, que facilitem a reabsor\u00e7\u00e3o de materiais org\u00e2nicos, como a compostagem.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1gZa_RJkIWjwfT-AnyBTszTzvafrA9yyo\/view?usp=sharing No mundo contempor\u00e2neo, a produ\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o de res\u00edduos, vulgo lixo, representa um dos desafios mais prementes que enfrentamos. Por um lado, n\u00e3o queremos abdicar de uma vida cada vez mais consumista, mas por outro, temos problemas em lidar com os restos desse consumo. 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Uma rela\u00e7\u00e3o de medo e fasc\u00ednio com estes bichos que, grandes ou pequenos, t\u00eam uma eleg\u00e2ncia e um charme que n\u00f3s admiramos h\u00e1 mil\u00e9nios.<\/p>\n<p>A bi\u00f3loga evolutiva Anjali Goswami do Museu de Hist\u00f3ria Natural de Londres diz que os felinos s\u00e3o o c\u00famulo da perfei\u00e7\u00e3o evolutiva. O que para os amantes de gatos, e existem muitos casos de paix\u00e3o aguda, \u00e9 s\u00f3 a ci\u00eancia a confirmar o \u00f3bvio.<\/p>\n<p>A suprema arte evolutiva dos felinos reside, pasme-se, na sua simplicidade. Calma, n\u00e3o estou a dizer que os gatos s\u00e3o criaturas b\u00e1sicas. Nada disso, os gatos s\u00e3o o bicho mais misteriosamente contradit\u00f3rio, conseguem ser distantes e carinhosos, pregui\u00e7osos e indom\u00e1veis, sedutores e exasperantes, e n\u00f3s morremos de amor pelo seu temperamento independente e atitudes desconcertantes.<\/p>\n<p>Eles s\u00e3o perfeitos porque, enormes ou pequenos, s\u00e3o incrivelmente similares e extremamente especializados. A sua falta de varia\u00e7\u00e3o faz deles animais incr\u00edveis porque encontraram a f\u00f3rmula perfeita, n\u00e3o precisam de diversidade para serem bem-sucedidos. Alcan\u00e7aram um design que nunca falha.<\/p>\n<p>Estima-se que mais de 600 milh\u00f5es de gatos vivam entre humanos. N\u00e3o sei quantas casas portuguesas t\u00eam gatos, mas sei que s\u00e3o muitas. Mas quando, como e porque \u00e9 que come\u00e7ou esta conviv\u00eancia?<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de outros animais dom\u00e9sticos, a origem da nossa hist\u00f3ria com os gatos n\u00e3o tem sido a mais f\u00e1cil de desvendar. Tem l\u00f3gica, porque haveria de ser f\u00e1cil se o bicho \u00e9 t\u00e3o enigm\u00e1tico e sofisticado? Tinha de se fazer dif\u00edcil, claro.<\/p>\n<p>Quando pensamos na domestica\u00e7\u00e3o dos gatos talvez logo nos venha \u00e0 mem\u00f3ria o Antigo Egipto. L\u00e1 chegarei. Contudo, a hist\u00f3ria come\u00e7a muito antes, e para a desvendar entra em cena a arqueologia e, claro, a gen\u00e9tica.<\/p>\n<p>Durante muitos anos, a ci\u00eancia indicava que toda a variedade de gatos descenderia de uma esp\u00e9cie de gato selvagem \u2013 Felis silvestris \u2013, mas qual, exatamente? Para tentar resolver esta quest\u00e3o foi analisado o ADN de cerca de mil gatos selvagens e dom\u00e9sticos. O estudo indicou a exist\u00eancia de cinco grandes grupos entre os gatos selvagens, mas tamb\u00e9m indicou que os dom\u00e9sticos se agrupavam s\u00f3 com um desses, o F. silvestres lybica, isto \u00e9, o gato selvagem das regi\u00f5es do M\u00e9dio Oriente.<\/p>\n<p>Est\u00e1 ent\u00e3o a hist\u00f3ria da domestica\u00e7\u00e3o do gato ligada a uma regi\u00e3o que encerra a hist\u00f3ria de muitas domestica\u00e7\u00f5es, desde plantas a outros bem conhecidos animais dom\u00e9sticos, como as cabras e as ovelhas.<\/p>\n<p>Mas aqui come\u00e7a a outra parte desta hist\u00f3ria fascinante, onde entra a arqueologia. \u00c9 que, ao contr\u00e1rio de cabras, ovelhas, porcos ou vacas, ou at\u00e9 mesmo os c\u00e3es, os gatos pouco ou nada contribuem para a nossa sobreviv\u00eancia. Ent\u00e3o como e porque \u00e9 que se aproximaram de n\u00f3s e porque \u00e9 que n\u00f3s os acolhemos? E j\u00e1 agora, h\u00e1 quanto tempo \u00e9 que isso aconteceu?<\/p>\n<p>Parece que h\u00e1 pelo menos cerca de 10 000 anos. \u00c9 o que indica uma descoberta de um enterramento humano acompanhado de um gato na ilha de Chipre, com 9 500 anos. Em Shillourokambos, arque\u00f3logos do Museu de Hist\u00f3ria Natural de Paris escavaram os restos de um esqueleto humano acompanhado de artefactos, conchas e um peda\u00e7o de ocre, que tinha a cerca de 40 cent\u00edmetros de dist\u00e2ncia os restos de um gato.<\/p>\n<p>Estes achados provam uma evidente proximidade intencional entre os humanos e os gatos. Ora estes \u00faltimos, j\u00e1 sabemos, n\u00e3o s\u00e3o nativos desta ilha, e l\u00e1 teriam chegado de barco vindos de outras partes, provavelmente do Crescente F\u00e9rtil, j\u00e1 como nossa companhia.<\/p>\n<p>E l\u00e1 voltamos \u00e0 mesma pergunta, porque \u00e9 que eram uma companhia t\u00e3o pr\u00f3xima? E de tal forma chegada que, uns poucos milhares de anos depois, j\u00e1 eram criaturas sagradas e adoradas no Antigo Egipto?<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio da maioria dos animais que foram domesticados na Pr\u00e9-Hist\u00f3ria, os gatos n\u00e3o vivem em grupos, nem t\u00eam hierarquias sociais: s\u00e3o livres e solit\u00e1rios. Ca\u00e7adores ex\u00edmios e protetores dos seus territ\u00f3rios. N\u00e3o s\u00e3o caracter\u00edsticas de bons candidatos \u00e0 domestica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se pensar no seu gatinho, ele gosta muito da sua companhia, mas \u00e9 s\u00f3 quando quer, certo? At\u00e9 passa bem sem si, desde que nutrido, durante longos per\u00edodos. E por muito caseira que seja a sua gata, haja uma janela aberta, ou uma varanda, e grandes possibilidades h\u00e1 de ela ca\u00e7ar um pobre passarinho.<\/p>\n<p>Por outro lado, se lhe consegue dar ordens, \u00e9 uma excep\u00e7\u00e3o \u00e0 regra, porque os gatos, regra geral, marimbam-se para as ordens dos donos.<\/p>\n<p>Pois \u00e9, n\u00f3s n\u00e3o os escolhemos por nos serem \u00fateis, foram eles que nos escolheram a n\u00f3s. E fizeram-no l\u00e1 para os lados do Crescente F\u00e9rtil h\u00e1 cerca de 10 mil anos. A raz\u00e3o \u00e9 talvez simples: os ratos. Os novos povoados Neol\u00edticos, que aqui surgiram quando nos tornamos agricultores e pastores, eram muito apetec\u00edveis para ratinhos que se deliciavam com restos de comidas e com os silos de cereais que existiam nestes aglomerados.\u00a0 Claro est\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 Jerry sem Tom e estes ratos, os Mus Muculus domesticus, l\u00e1 atra\u00edram os gatos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de ratos para ca\u00e7ar, havia restos de comida, portanto os gatos selvagens que melhor se adaptaram a esta novo modo de vida tornaram-se improv\u00e1veis companhias dos humanos. N\u00e3o imediatamente no sentido de animais de companhia dom\u00e9sticos ou privilegiados, como viriam a ser no Antigo Egipto. Mas a efic\u00e1cia em despachar ratos indesej\u00e1veis, o seu apelo natural resultante da sua fisiognomonia elegante e o seu ar ador\u00e1vel quando pequeninos, naturalmente ter\u00e3o despertado o carinho dos humanos.<\/p>\n<p>Tanto assim foi que, h\u00e1 cerca de 3 600 anos, no grandioso per\u00edodo do Imp\u00e9rio Novo do antigo Egipto, as imagens de gatos, sobretudo pinturas, s\u00e3o cada vez mais abundantes, provando que eram n\u00e3o s\u00f3 companhia comum, mas tamb\u00e9m que os eg\u00edpcios os criavam propositadamente. Mas tornaram-se mais do que isso. Passados uns s\u00e9culos, foram promovidos a divindades na forma da deusa Bastet, sendo sacrificados, mumificados e enterrados em lugares sagrados dedicados a esta Deusa protetiva e da fertilidade. Em Bubastis, o seu principal local de culto, foram encontradas milhares de m\u00famias e estatuetas de gatos.<\/p>\n<p>Os gatos foram adorados durante s\u00e9culos no antigo Egipto e foi mesmo proibida a sua exporta\u00e7\u00e3o para fora dos dom\u00ednios do imp\u00e9rio. J\u00e1 se sabe que as proibi\u00e7\u00f5es nunca s\u00e3o totalmente eficazes e o Imp\u00e9rio Eg\u00edpcio n\u00e3o era fechado ao com\u00e9rcio no Mediterr\u00e2neo e, a bordo de navios, onde eram \u00fateis a ca\u00e7ar ratos, l\u00e1 ter\u00e3o chegado a Roma. Aqui, j\u00e1 sabemos, estava para nascer outro grande imp\u00e9rio territorial, cujos soldados ter\u00e3o levado os gatos por essa Europa fora.<\/p>\n<p>N\u00f3s e os gatos em \u00c9pocas Hist\u00f3ricas \u00e9 outra conversa, de amor e \u00f3dio \u2013 bem o podem dizer os gatos pretos. Mas fica para outra oportunidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os felinos fazem parte da nossa hist\u00f3ria. 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Conta o evangelho de S. Mateus que uma estrela, a estrela de Bel\u00e9m, brilhava intensamente no c\u00e9u anunciando o nascimento de Jesus. O astro ter\u00e1 guiado os reis Magos at\u00e9 este outro rei, rec\u00e9m-nascido algures na Terra Sagrada, n\u00e3o muito longe de Jerusal\u00e9m. Mas ser\u00e1 que essa estrela existiu mesmo? Ou ter\u00e1 sido outro fen\u00f3meno astron\u00f3mico?<\/p>\n<p>Estas s\u00e3o quest\u00f5es que h\u00e1 muito ocupam estudiosos, desde uma perspectiva religiosa ou hist\u00f3rica, mas tamb\u00e9m cient\u00edfica. Relacionar a narrativa b\u00edblica com eventos hist\u00f3ricos \u00e9 um campo complexo de estudo, que atrai interesse, muitas vezes apaixonado, dentro e fora do meio acad\u00e9mico. E nesta discuss\u00e3o da Estrela de Bel\u00e9m h\u00e1, claro, os crentes e os n\u00e3o crentes, mas o ponto n\u00e3o \u00e9 legitimar ou desmentir a B\u00edblia, \u00e9 antes estudar da forma mais imparcial poss\u00edvel os dados hist\u00f3ricos e astron\u00f3micos em torno desta men\u00e7\u00e3o no Evangelho de S. Mateus.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s, humanos, e as estrelas \u00e9, no entanto, bem mais antiga do que a \u00e9poca do relato do nascimento de Jesus Cristo. Uma longa e rica hist\u00f3ria de rela\u00e7\u00f5es e interpreta\u00e7\u00f5es c\u00f3smicas, de natureza ritual, mitol\u00f3gica, filos\u00f3fica e religiosa, com muita rever\u00eancia, supersti\u00e7\u00e3o e poder divinat\u00f3rio (ainda hoje a astrologia \u00e9 tida, para muitos, como verdadeira), precede os olhares de Galileu ou Kepler em dire\u00e7\u00e3o ao c\u00e9u estrelado.<\/p>\n<p>Podemos dizer com bastante certeza que a nossa vontade de dialogar com os c\u00e9us atrav\u00e9s das estrelas, pr\u00f3ximas de divindades detentoras de poderes que n\u00e3o controlamos, mas que queremos favor\u00e1veis, remonta \u00e0 Pr\u00e9-Hist\u00f3ria. A que momento preciso da Pr\u00e9-Hist\u00f3ria? N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel afirmar com certeza.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem a veja nas famosas pinturas de Lascaux, sugerindo que uma mancha de pontos pretos por cima de um dos muitos auroques ali pintados, \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o das Pl\u00eaiades que os ca\u00e7adores paleol\u00edticos veriam com enorme clareza nos c\u00e9us noturnos de h\u00e1 quase 20 000 anos.<\/p>\n<p>Contudo, esta \u00e9 uma sugest\u00e3o altamente controversa. O que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 controverso \u00e9 a evidente rela\u00e7\u00e3o entre as paisagens celestes e as comunidades neol\u00edticas de h\u00e1, pelo menos, 5 000 anos. Neste tempo de agricultores e pastores, mas tamb\u00e9m construtores de arquiteturas que rasgavam o territ\u00f3rio, a liga\u00e7\u00e3o entre o c\u00e9u e a terra \u00e9 inequ\u00edvoca.<\/p>\n<p>Desde logo com o Sol que tem uma import\u00e2ncia simb\u00f3lica, porventura religiosa, dominante. Isso \u00e9 evidente numa grande variedade de express\u00f5es art\u00edsticas, parietais e m\u00f3veis, e nas decora\u00e7\u00f5es de recipientes cer\u00e2micos. No Neol\u00edtico, o Sol e outras estrelas tinham tamb\u00e9m uma influ\u00eancia determinante nas arquiteturas, funer\u00e1rias e n\u00e3o s\u00f3, que marcavam e organizavam as paisagens.<\/p>\n<p>H\u00e1 mesmo um ramo da arqueologia, controverso e nem sempre consensual, a Arqueoastronomia, que se dedica a estudar a rela\u00e7\u00e3o dos povos antigos com objectos e fen\u00f3menos celestes, que teve a sua origem precisamente no estudo de padr\u00f5es das dire\u00e7\u00f5es preferenciais de constru\u00e7\u00f5es funer\u00e1rias que representariam alinhamentos astron\u00f3micos, com o Sol e os seus equin\u00f3cios, e demais estrelas.<\/p>\n<p>Mesmo que o primeiro pensamento sobre este tema provavelmente v\u00e1 para Stonehenge, n\u00e3o precisamos de sair de Portugal para encontrar sinais desta milenar rela\u00e7\u00e3o, tanto nas serras, como nas plan\u00edcies.<\/p>\n<p>Em plena plan\u00edcie alentejana, nos arredores de Monsaraz, encontra-se o recinto de fossos dos Perdig\u00f5es, um impressionante s\u00edtio cerimonial, com uma longa ocupa\u00e7\u00e3o de 1400 anos entre 5400 e 4000 anos antes do presente.<\/p>\n<p>Com uma \u00e1rea de cerca de 16 hectares, os Perdig\u00f5es, com as suas in\u00fameras fossas, fossos, sepulcros e vest\u00edgios de um impressionante recinto central de madeira, localizam-se num anfiteatro natural virado para o Sol, enquadrando assim todo o seu horizonte entre os solst\u00edcios ao nascer do sol. Para Ant\u00f3nio Valera, arque\u00f3logo e coordenador cient\u00edfico das investiga\u00e7\u00f5es, a linha do horizonte deste local seria um aut\u00eantico calend\u00e1rio solar. Acresce que nela, a eleva\u00e7\u00e3o de Monsaraz est\u00e1 numa rela\u00e7\u00e3o de 90 graus com o recinto, marcando desta forma os equin\u00f3cios. Assim, desde o interior do recinto o nascimento do sol seria vis\u00edvel durante todo o ano, levantando-se todos os dias no horizonte para onde se abre o anfiteatro, tamb\u00e9m todos os dias descia nas suas costas. Dificilmente se entender\u00e1 este s\u00edtio, e o que ele representaria simbolicamente para as comunidades que agregava de forma cerimonial, mas tamb\u00e9m social e econ\u00f3mica, sem considerar a sua localiza\u00e7\u00e3o precisa, estando esta profundamente ligada aos ciclos da nossa estrela mais pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>Mais a norte n\u00e3o h\u00e1 como escapar \u00e0 imponente Serra da Estrela, agora, tal como no passado. A estrela, no caso, poder\u00e1 ser Aldebar\u00e3 e tamb\u00e9m brilhava nos c\u00e9us de h\u00e1 4 mil anos.<\/p>\n<p>F\u00e1bio Silva, formado em Astrof\u00edsica e com diversos trabalhos em Arqueoastronomia, debru\u00e7ou-se sobre os conjuntos de monumentos megal\u00edticos da regi\u00e3o do Mondego, e identificou um padr\u00e3o de orienta\u00e7\u00e3o destas constru\u00e7\u00f5es funer\u00e1rias com a Serra da Estrela. A quest\u00e3o arqueoastron\u00f3mica seria, portanto, qual o evento que poderia ocorrer no intervalo dos azimutes medidos nestes monumentos?<\/p>\n<p>Ora, recuando \u00e0 \u00e9poca da constru\u00e7\u00e3o destes monumentos, a estrela de Aldebar\u00e3 nasceria exatamente nesta faixa do horizonte. Esta estrela, cuja primeira apari\u00e7\u00e3o \u00e9 de madrugada, imediatamente antes do Sol, tinha um per\u00edodo em que n\u00e3o era vis\u00edvel, ap\u00f3s o qual tinha o seu nascimento heliacal em finais de abril e in\u00edcio de maio. Tendo estas comunidades neol\u00edticas uma economia muito baseada na pastor\u00edcia, o que \u00e9 normal numa geografia montanhosa, o investigador avan\u00e7a a ideia de que o nascimento heliacal de Aldebar\u00e3 poderia ter sido um marcador temporal do movimento c\u00edclico dos rebanhos para pastagens mais altas. O ritmo da terra e o ritmo do c\u00e9u estariam assim juntos na express\u00e3o simb\u00f3lica e ritual das constru\u00e7\u00f5es funer\u00e1rias destas comunidades.<\/p>\n<p>Se \u00e9 ent\u00e3o certo que as estrelas teriam uma import\u00e2ncia maior desde a Pr\u00e9-Hist\u00f3ria, n\u00e3o acharemos, portanto, estranho que uma estrela seja tamb\u00e9m protagonista de uma das mais marcantes hist\u00f3rias da Humanidade.<\/p>\n<p>E voltamos, ent\u00e3o, \u00e0 pergunta inicial: poderia ou n\u00e3o ter havido uma estrela a guiar Baltazar, Gaspar e Belchior? E era uma estrela ou outro fen\u00f3meno astron\u00f3mico?<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 resposta definitiva, lamento dizer. H\u00e1, no entanto, algumas hip\u00f3teses.<\/p>\n<p>Sendo mais fracas as ideias de que poderia ter sido um cometa, uma supernova ou um meteoro, a ideia com mais probabilidade hist\u00f3rica e cient\u00edfica \u00e9 a de que poderia ter sido uma conjun\u00e7\u00e3o de dois planetas. As conjun\u00e7\u00f5es ocorrem quando dois objectos estelares (por exemplo, os brilhantes J\u00fapiter e Saturno), se aproximam no c\u00e9u noturno da Terra. Na realidade est\u00e3o longe de estar perto um do outro, no entanto, de onde os vemos eles parecem estar \u2013 e com um brilho muito intenso.<\/p>\n<p>A ideia de que uma conjun\u00e7\u00e3o entre estes planetas brilhantes poderia explicar a Estrela de Bel\u00e9m n\u00e3o \u00e9 nova. Uma nota nos Anais da Abadia de Worcester, datada de 1285 d.C., menciona um alinhamento de J\u00fapiter e Saturno que teria acontecido na \u00e9poca do nascimento de Jesus. E o pr\u00f3prio Johannes Kepler explorou essa ideia no s\u00e9culo XVII. De facto, h\u00e1 evid\u00eancias astron\u00f3micas de que houve algumas conjun\u00e7\u00f5es planet\u00e1rias em torno da data historicamente aceite como a do nascimento de Jesus.<\/p>\n<p>Uma hip\u00f3tese sugere que uma conjun\u00e7\u00e3o de J\u00fapiter e Saturno pode ter ocorrido em abril do ano 6 a.C. Esta, por v\u00e1rios motivos, entrela\u00e7a-se na narrativa hist\u00f3rica. Em primeiro lugar, porque ocorreu nas primeiras horas da manh\u00e3, e a descri\u00e7\u00e3o da Estrela de Bel\u00e9m \u00e9 a de uma estrela matutina. Al\u00e9m disso, conta o evangelho, que os Magos a perderam temporariamente de vista, para depois encontr\u00e1-la indicando o local onde estava Jesus. Tal pode ser explicado pelo movimento retr\u00f3grado de J\u00fapiter, que cria a ilus\u00e3o de mudan\u00e7a de dire\u00e7\u00e3o no c\u00e9u noturno quando a \u00f3rbita da Terra o ultrapassa.<\/p>\n<p>Ter\u00e1 sido assim? N\u00e3o sabemos ao certo e a pergunta permanece. A verdade \u00e9 que, no que \u00e0 Estrela de Bel\u00e9m diz respeito, nem a hist\u00f3ria nem a ci\u00eancia podem, por enquanto, desvendar a sua exist\u00eancia. Mas nem as estrelas ter\u00e3o deixado de brilhar no c\u00e9u h\u00e1 dois mil anos, nem o Natal ter\u00e1 por isso, todos os anos, menos magia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: https:\/\/drive.google.com\/drive\/folders\/1NsVPMA19OaKA70QMz9SbEkuhluaRpAkc?usp=sharing \u201cEra uma vez\u2026\u201d \u00e9 uma rubrica quinzenal sobre Ci\u00eancia e Hist\u00f3ria, assegurada pela arque\u00f3loga Sara Cura. O Natal termina no dia 6 de janeiro, com o dia de Reis. Conta o evangelho de S. Mateus que uma estrela, a estrela de Bel\u00e9m, brilhava intensamente no c\u00e9u anunciando o nascimento de Jesus. 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Isso se deve em grande parte ao crescimento econ\u00f4mico: embora o fornecimento de energia renov\u00e1vel tenha se expandido nos \u00faltimos anos, o consumo mundial de energia <a href=\"https:\/\/www.forbes.com\/sites\/jamesconca\/2021\/07\/23\/whats-happening-global-emissions-are-still-rising\/?sh=308f054a77ec\">aumentou ainda mais<\/a> \u2013 com a diferen\u00e7a entre os dois sendo compensada pelos combust\u00edveis f\u00f3sseis. Quanto mais a economia mundial cresce, mais dif\u00edcil \u00e9 que essas adi\u00e7\u00f5es de energia renov\u00e1vel virem o jogo, substituindo efetivamente a energia f\u00f3ssil, em vez de apenas somar-se a ela.<\/p>\n<p>A ideia de frear voluntariamente o crescimento econ\u00f4mico para minimizar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e facilitar a substitui\u00e7\u00e3o dos combust\u00edveis f\u00f3sseis \u00e9 um an\u00e1tema pol\u00edtico n\u00e3o apenas nos pa\u00edses ricos, cuja popula\u00e7\u00e3o se acostumou a consumir a taxas extraordinariamente altas, mas ainda mais em pa\u00edses mais pobres, aos quais foi prometida a oportunidade de \u201cdesenvolver-se\u201d.<\/p>\n<p>Afinal, s\u00e3o os pa\u00edses ricos os respons\u00e1veis \u200b\u200bpela grande maioria das emiss\u00f5es passadas (que est\u00e3o impulsionando as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas atualmente); e, de fato, esses pa\u00edses em grande parte enriqueceram com a atividade industrial da qual as emiss\u00f5es de carbono eram um subproduto. Agora s\u00e3o as na\u00e7\u00f5es mais pobres do mundo que est\u00e3o sofrendo o <a href=\"https:\/\/www.bloomberg.com\/news\/articles\/2022-02-28\/global-south-cities-face-dire-climate-impacts-un-report\">impacto das mudan<u>\u00e7<\/u>as clim<u>\u00e1<\/u>ticas<\/a> causadas pelas na\u00e7\u00f5es mais ricas. N\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel nem justo perpetuar a explora\u00e7\u00e3o da terra, dos recursos e do trabalho nos pa\u00edses menos industrializados, bem como das comunidades historicamente exploradas nos pa\u00edses ricos, para manter o estilo de vida e as expectativas de maior crescimento das minorias ricas.<\/p>\n<p>Do ponto de vista das pessoas em na\u00e7\u00f5es menos industrializadas, \u00e9 natural querer consumir mais, parece justo. Mas isso se traduz em mais crescimento econ\u00f4mico global e em mais dificuldades para substituir os combust\u00edveis f\u00f3sseis por renov\u00e1veis a n\u00edvel global. A China \u00e9 o exemplo desse enigma: nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, a na\u00e7\u00e3o mais populosa do mundo tirou centenas de milh\u00f5es de pessoas da pobreza, mas no processo se tornou a maior produtora e consumidora de carv\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p><strong>O dilema dos materiais<\/strong><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m representando uma enorme dificuldade para uma mudan\u00e7a social de combust\u00edveis f\u00f3sseis para fontes de energia renov\u00e1veis \u200b\u200best\u00e1 nossa crescente demanda de minerais e metais. O <a href=\"https:\/\/pubdocs.worldbank.org\/en\/961711588875536384\/Minerals-for-Climate-Action-The-Mineral-Intensity-of-the-Clean-Energy-Transition.pdf\">Banco Mundial<\/a>, a <a href=\"https:\/\/www.iea.org\/reports\/the-role-of-critical-minerals-in-clean-energy-transitions\">AIE<\/a>, o <a href=\"https:\/\/www.imf.org\/en\/Publications\/WP\/Issues\/2021\/10\/12\/Energy-Transition-Metals-465899\">Fundo Monet<u>\u00e1<\/u>rio Internacional<\/a> e a <a href=\"https:\/\/www.mckinsey.com\/industries\/metals-and-mining\/our-insights\/the-raw-materials-challenge-how-the-metals-and-mining-sector-will-be-at-the-core-of-enabling-the-energy-transition\">McKinsey and Company<\/a> emitiram relat\u00f3rios nos \u00faltimos anos alertando sobre esse problema crescente. <a href=\"https:\/\/link.springer.com\/book\/10.1007\/978-3-030-78533-8\">Vastas<\/a> <a href=\"https:\/\/www.scientificamerican.com\/article\/europes-historic-clean-energy-plan-faces-a-mining-problem\/\">quantidades<\/a> de minerais e metais ser\u00e3o necess\u00e1rias n\u00e3o apenas para fabricar pain\u00e9is solares e turbinas e\u00f3licas, mas tamb\u00e9m para baterias, ve\u00edculos el\u00e9tricos e novos equipamentos industriais que funcionam com eletricidade em vez de combust\u00edveis \u00e0 base de carbono.<\/p>\n<p>Alguns desses materiais j\u00e1 mostram sinais de escassez crescente: de acordo com o F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial, o custo m\u00e9dio de produ\u00e7\u00e3o do cobre aumentou mais de 300% nos \u00faltimos anos, enquanto a concentra\u00e7\u00e3o de cobre nos dep\u00f3sitos minerais <a href=\"https:\/\/www.weforum.org\/reports\/digital-transformation-of-industries\/\">caiu 30%<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/untoday.org\/mark-jacobson-by-alexis-issaharoff\/\">Avalia<u>\u00e7\u00f5<\/u>es otimistas<\/a> do desafio dos materiais sugerem que h\u00e1 reservas globais suficientes para uma constru\u00e7\u00e3o \u00fanica de todos os novos dispositivos e infraestrutura necess\u00e1rios (contanto que com algumas substitui\u00e7\u00f5es, como, por exemplo, baterias de l\u00edtio sendo eventualmente <a href=\"https:\/\/e360.yale.edu\/digest\/new-iron-based-battery-promises-to-be-a-cheap-alternative-to-lithium\">substitu<u>\u00ed<\/u>das por elementos mais abundantes como o ferro<\/a>). Mas o que a sociedade deve fazer quando esta primeira gera\u00e7\u00e3o de dispositivos e infraestrutura envelhecer e demandar substitui\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Economia circular: uma miragem?<\/strong><\/p>\n<p>Da\u00ed o interesse bastante s\u00fabito e generalizado pela cria\u00e7\u00e3o de uma <a href=\"https:\/\/ellenmacarthurfoundation.org\/topics\/circular-economy-introduction\/overview\">economia circular<\/a> em que tudo \u00e9 reciclado infinitamente. Infelizmente, como descobriu o economista Nicholas Georgescu-Roegen <a href=\"https:\/\/www.hup.harvard.edu\/catalog.php?isbn=9780674281653\">em seu trabalho pioneiro sobre a entropia<\/a>, a reciclagem \u00e9 sempre incompleta, e sempre custa energia. Os materiais geralmente se degradam durante cada ciclo de uso e parte do material \u00e9 desperdi\u00e7ado no processo de reciclagem.<\/p>\n<p>Uma <a href=\"https:\/\/emergent-scientist.edp-open.org\/articles\/emsci\/full_html\/2022\/01\/emsci210005\/emsci210005.html\">an<u>\u00e1<\/u>lise preliminar<\/a> da transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica que assumiu o m\u00e1ximo de reciclagem poss\u00edvel descobriu que uma crise de fornecimento de materiais poderia ser adiada em at\u00e9 tr\u00eas s\u00e9culos. Mas ser\u00e1 que a economia circular (em si um enorme empreendimento e um objetivo distante) chegar\u00e1 a tempo de comprar a civiliza\u00e7\u00e3o industrial estes 300 anos extras? Ou vamos ficar sem materiais cr\u00edticos nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, em nosso esfor\u00e7o fren\u00e9tico para construir o m\u00e1ximo de dispositivos de energia renov\u00e1vel no menor per\u00edodo de tempo poss\u00edvel?<\/p>\n<p>Este \u00faltimo resultado parece mais prov\u00e1vel se as estimativas pessimistas de recursos se revelarem precisas. Simon Michaux, do Servi\u00e7o Geol\u00f3gico Finland\u00eas, <a href=\"https:\/\/tupa.gtk.fi\/raportti\/arkisto\/16_2021.pdf\">constata<\/a> que \u201cas reservas [g]lobais n\u00e3o s\u00e3o grandes o suficiente para fornecer metais em quantidades adequadas para construir o sistema industrial de combust\u00edveis renov\u00e1veis \u200b\u200bn\u00e3o f\u00f3sseis [\u2026] A descoberta de dep\u00f3sitos minerais tem diminu\u00eddo para muitos metais. A qualidade do min\u00e9rio processado para muitos dos metais industriais tem diminu\u00eddo ao longo do tempo, resultando em decl\u00ednio no rendimento do processamento mineral. Isso implica no aumento do consumo de energia de minera\u00e7\u00e3o por unidade de metal\u201d.<\/p>\n<p>Os pre\u00e7os do a\u00e7o j\u00e1 <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/environment\/2022\/may\/24\/supply-chain-delays-and-steel-costs-are-part-of-perfect-storm-stalling-renewable-energy-growth\">est<u>\u00e3<\/u>o<\/a> <a href=\"https:\/\/www.popularmechanics.com\/science\/energy\/a25576543\/renewable-limits-materials-dutch-ministry-infrastructure\/\">subindo<\/a> e o <a href=\"https:\/\/www.bcg.com\/publications\/2022\/the-lithium-supply-crunch-doesnt-have-to-stall-electric-cars\">fornecimento de l<u>\u00ed<\/u>tio<\/a> pode ser um gargalo para o r\u00e1pido aumento da produ\u00e7\u00e3o de baterias. At\u00e9 <a href=\"https:\/\/www.cnbc.com\/2021\/03\/05\/sand-shortage-the-world-is-running-out-of-a-crucial-commodity.html\">a areia est<u>\u00e1 <\/u>ficando escassa<\/a>: apenas certos tipos deste material s\u00e3o \u00fateis para fazer concreto (que ancora turbinas e\u00f3licas) ou sil\u00edcio (que \u00e9 essencial para os pain\u00e9is solares). Mais areia \u00e9 consumida anualmente do que qualquer outro material, com exce\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, e alguns cientistas do clima identificaram essa quest\u00e3o como um dos <a href=\"https:\/\/unepgrid.ch\/en\/activity\/sand\">principais desafios para a sustentabilidade<\/a> neste s\u00e9culo. Previsivelmente, \u00e0 medida que os dep\u00f3sitos se esgotam, a areia est\u00e1 se tornando mais uma fa\u00edsca nas disputas geopol\u00edticas, com a China recentemente <a href=\"https:\/\/www.timesnownews.com\/exclusive\/how-does-chinas-natural-sand-export-ban-to-taiwan-impact-the-world-article-93367438\">embargando remessas de areia<\/a> para Taiwan com a inten\u00e7\u00e3o de prejudicar a capacidade da ilha fabricar dispositivos semicondutores, como telefones celulares.<\/p>\n<p><strong>Para reduzir o risco, reduzir a escala<\/strong><\/p>\n<p>Durante a era dos combust\u00edveis f\u00f3sseis, a economia global dependia de taxas cada vez maiores de extra\u00e7\u00e3o e queima de carv\u00e3o, petr\u00f3leo e g\u00e1s natural. A era renov\u00e1vel (se ela de fato vier a existir) ser\u00e1 fundada na extra\u00e7\u00e3o em larga escala de minerais e metais para pain\u00e9is, turbinas, baterias e outras infraestruturas, que exigir\u00e3o substitui\u00e7\u00f5es peri\u00f3dicas.<\/p>\n<p>Essas duas eras econ\u00f4micas implicam riscos distintos: o regime de combust\u00edvel f\u00f3ssil arriscou o esgotamento e a polui\u00e7\u00e3o (principalmente a polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica por carbono levando \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica); o regime de energias renov\u00e1veis \u200b\u200btamb\u00e9m correr\u00e1 o risco de esgotamento (de minera\u00e7\u00e3o de minerais e metais) e polui\u00e7\u00e3o (de descarte de pain\u00e9is, turbinas e baterias antigas e de v\u00e1rios processos de fabrica\u00e7\u00e3o), mas com menor vulnerabilidade \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. A \u00fanica maneira de diminuir o risco completamente seria reduzir substancialmente a escala do uso de energia e materiais pela sociedade \u2013 mas pouqu\u00edssimos formuladores de pol\u00edticas ou organiza\u00e7\u00f5es de defesa do clima est\u00e3o explorando essa possibilidade.<\/p>\n<p><strong>A mudan\u00e7<\/strong><strong>a clim<\/strong><strong>\u00e1tica atrapalha os esfor\u00e7os para combater a mudan\u00e7<\/strong><strong>a clim<\/strong><strong>\u00e1<\/strong><strong>tica<\/strong><\/p>\n<p>Por mais assustadores que sejam, os desafios financeiros, pol\u00edticos e materiais n\u00e3o esgotam a lista de poss\u00edveis barreiras para a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. A pr\u00f3pria mudan\u00e7a clim\u00e1tica tamb\u00e9m est\u00e1 dificultando a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica \u2013 que, \u00e9 claro, est\u00e1 sendo realizada para impedir a mudan\u00e7a clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>Durante o ver\u00e3o de 2022, a China experimentou sua <a href=\"https:\/\/multimedia.scmp.com\/infographics\/news\/china\/article\/3190803\/china-drought\/index.html\">mais intensa onda de calor<\/a> em seis d\u00e9cadas. Tal onda afetou uma ampla regi\u00e3o, desde a prov\u00edncia central de Sichuan at\u00e9 a costa de Jiangsu, com temperaturas frequentemente chegando a 40 graus Celsius, e <a href=\"https:\/\/www.fastcompany.com\/90782689\/chinas-unprecedented-heat-wave-is-another-sign-we-arent-ready-for-the-reality-of-climate-change\">atingindo um recorde de 45 graus em Chongqing<\/a>, em 18 de agosto. Ao mesmo tempo, uma <a href=\"https:\/\/www.theverge.com\/2022\/8\/17\/23310205\/china-sichuan-heatwave-intel-tesla-apple-foxconn-toyota-electric-cars-catl\">crise energ<u>\u00e9<\/u>tica<\/a> induzida pela seca for\u00e7ou a Contemporary Amperex Technology Co., maior fabricante mundial de baterias, a fechar f\u00e1bricas na prov\u00edncia chinesa de Sichuan. O fornecimento de pe\u00e7as cruciais para a Tesla e a Toyota foi temporariamente interrompido.<\/p>\n<p>Enquanto isso, uma hist\u00f3ria igualmente sombria se desenrolou na Alemanha, quando uma seca recorde reduziu o fluxo de \u00e1gua no rio Reno a n\u00edveis que prejudicaram o com\u00e9rcio europeu, <a href=\"https:\/\/gcaptain.com\/drought-hit-rhine-river-adds-to-europes-energy-crisis\/\">interrompendo os embarques<\/a> de diesel e carv\u00e3o e <a href=\"https:\/\/www.forbes.com\/sites\/arielcohen\/2022\/08\/24\/hot-cities-and-cold-turbines-energy-in-a-time-of-drought\/?sh=619179e613d3\">amea<u>\u00e7<\/u>ando as opera<u>\u00e7\u00f5<\/u>es de usinas hidrel<u>\u00e9<\/u>tricas e nucleares<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um estudo publicado em fevereiro de 2022 na revista <a href=\"https:\/\/www.mdpi.com\/2073-4441\/14\/5\/721\">Water<\/a> descobriu que as secas (que est\u00e3o se tornando mais frequentes e severas com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas) podem criar desafios para hidrel\u00e9tricas dos Estados Unidos em Montana, Nevada, Texas, Arizona, Calif\u00f3rnia, Arkansas e Oklahoma.<\/p>\n<p>Enquanto isso, as usinas nucleares francesas que dependem do rio R\u00f3dano para resfriar a \u00e1gua tiveram que <a href=\"https:\/\/www.wired.com\/story\/nuclear-power-plants-struggling-to-stay-cool\/\">fechar repetidamente<\/a>. Se os reatores expelirem \u00e1gua muito quente rio abaixo, a vida aqu\u00e1tica \u00e9 eliminada. Assim, durante o ver\u00e3o sufocante de 2022, a \u00c9lectricit\u00e9 de France (EDF) desligou os reatores n\u00e3o apenas ao longo do R\u00f3dano, mas tamb\u00e9m em um segundo grande rio no sul, o Garonne. Ao todo, a produ\u00e7\u00e3o de energia nuclear da Fran\u00e7a foi reduzida em quase 50% durante o ver\u00e3o de 2022. Paralisa\u00e7\u00f5es semelhantes relacionadas \u00e0 seca e ao calor aconteceram em 2018 e 2019.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.dw.com\/en\/can-hydropower-withstand-a-future-of-extreme-weather\/a-58968255\">Chuvas fortes e inunda<u>\u00e7\u00f5<\/u>es<\/a> tamb\u00e9m podem representar riscos para a energia hidrel\u00e9trica e nuclear \u2013 que, juntas, atualmente fornecem cerca de quatro vezes mais eletricidade de baixo carbono a n\u00edvel global do que a e\u00f3lica e a solar combinadas. Em mar\u00e7o de 2019, graves inunda\u00e7\u00f5es no sul e oeste da \u00c1frica, ap\u00f3s o ciclone Idai, <a href=\"https:\/\/reliefweb.int\/report\/mozambique\/cyclone-idai-and-floods-cause-massive-destruction-deaths-mozambique-zimbabwe-and\">danificaram duas grandes usinas hidrel<u>\u00e9<\/u>tricas<\/a> no Malawi, cortando a energia de partes do pa\u00eds por v\u00e1rios dias.<\/p>\n<p>Turbinas e\u00f3licas e pain\u00e9is solares tamb\u00e9m dependem do clima e, portanto, tamb\u00e9m <a href=\"https:\/\/www.energymonitor.ai\/policy\/market-design\/why-extreme-weather-is-putting-renewable-systems-in-the-spotlight\">s<u>\u00e3<\/u>o vulner<u>\u00e1<\/u>veis<\/a> \u200b\u200ba extremos. Dias frios e nublados, praticamente sem vento, representam problemas para regi\u00f5es fortemente dependentes de energia renov\u00e1vel. Tempestades incomuns podem <a href=\"https:\/\/www.tomorrow.io\/blog\/the-operational-guide-to-weather-excellence-renewable-energy\/\">danificar os pain<u>\u00e9<\/u>is solares<\/a>, e as altas temperaturas reduzem a efici\u00eancia dos pain\u00e9is. Furac\u00f5es e tempestades podem paralisar parques e\u00f3licos offshore.<\/p>\n<p>A transi\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis f\u00f3sseis para renov\u00e1veis encara uma batalha dif\u00edcil. Ainda assim, essa mudan\u00e7a \u00e9 uma estrat\u00e9gia paliativa essencial para manter as redes el\u00e9tricas funcionando, pelo menos em uma escala m\u00ednima, \u00e0 medida que a civiliza\u00e7\u00e3o inevitavelmente se afasta de um estoque de petr\u00f3leo e g\u00e1s que est\u00e1 se esgotando. O mundo tornou-se t\u00e3o dependente da rede el\u00e9trica para comunica\u00e7\u00f5es, finan\u00e7as e preserva\u00e7\u00e3o do conhecimento t\u00e9cnico, cient\u00edfico e cultural que, se as redes ca\u00edssem permanentemente e em breve, \u00e9 prov\u00e1vel que bilh\u00f5es de pessoas morressem e os sobreviventes seriam culturalmente destitu\u00eddos. Em ess\u00eancia, precisamos de energias renov\u00e1veis \u200b\u200bpara um pouso suave controlado. Mas a dura realidade \u00e9 que, por ora e no futuro previs\u00edvel, a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica n\u00e3o est\u00e1 indo bem e tem perspectivas gerais ruins.<\/p>\n<p>Precisamos de um plano realista para a redu\u00e7\u00e3o do uso da energia, em vez de sonhos tolos de abund\u00e2ncia eterna de consumo por outros meios que n\u00e3o os combust\u00edveis f\u00f3sseis. Atualmente, a insist\u00eancia politicamente enraizada no crescimento econ\u00f4mico cont\u00ednuo est\u00e1 desencorajando a sinceridade e o planejamento s\u00e9rio no que tange a viver bem com menos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Renewable energy isn\u2019t replacing fossil fuel energy\u2014it\u2019s adding to it.<\/p>\n","protected":false},"author":219,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[346],"tags":[358,384,534,439,459,360,424,385,485,389,363,364,365,519,368,521,370],"article-type":[625],"class_list":["post-7306","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-earth-food-life-pt-br","tag-activism-pt-br","tag-africa-pt-br","tag-africa-malawi-pt-br","tag-asia-china-pt-br","tag-climate-change-pt-br","tag-economy-pt-br","tag-environment-pt-br","tag-europe-pt-br","tag-europe-france-pt-br","tag-north-america-united-states-of-america-pt-br","tag-opinion-pt-br","tag-politics-pt-br","tag-portuguese-pt-br","tag-science-pt-br","tag-spanish-pt-br","tag-tech-pt-br","tag-trade-pt-br","article-type-opinion-analysis-pt-br"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/portal.independentmediainstitute.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7306","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/portal.independentmediainstitute.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/portal.independentmediainstitute.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portal.independentmediainstitute.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/219"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/portal.independentmediainstitute.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7306"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/portal.independentmediainstitute.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7306\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/portal.independentmediainstitute.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7306"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/portal.independentmediainstitute.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7306"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/portal.independentmediainstitute.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7306"},{"taxonomy":"article-type","embeddable":true,"href":"https:\/\/portal.independentmediainstitute.org\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/article-type?post=7306"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}},{"id":7368,"date":"2022-09-17T04:57:28","date_gmt":"2022-09-17T08:57:28","guid":{"rendered":"https:\/\/portal.independentmediainstitute.org\/2022\/09\/17\/evil-empire-let-the-monarchy-die-along-with-elizabeth\/"},"modified":"2023-06-01T15:55:14","modified_gmt":"2023-06-01T19:55:14","slug":"imperio-do-mal-que-a-monarquia-morra-junto-a-elizabeth","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/portal.independentmediainstitute.org\/pt-br\/2022\/09\/17\/imperio-do-mal-que-a-monarquia-morra-junto-a-elizabeth\/","title":{"rendered":"Imp\u00e9rio do mal: que a monarquia morra junto a Elizabeth"},"content":{"rendered":"<p>A morte da Rainha Elizabeth II, a monarca que mais tempo ocupou seu posto na realeza brit\u00e2nica, gerou uma onda de fascina\u00e7\u00e3o global e deu luz a milhares de not\u00edcias ca\u00e7a-cliques sobre os detalhes de seu funeral. Os estadunidenses, que s\u00e9culos atr\u00e1s rejeitaram a monarquia, est\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2022\/09\/14\/us\/america-queen-death-royal-family.html\">notavelmente obcecados<\/a> com a ritual\u00edstica, envolvidos em um luto bizarro pela morte de uma mulher idosa e fabulosamente rica, nascida no privil\u00e9gio, e que morreu de causas naturais no alto de seus 96 anos do outro lado do oceano.<\/p>\n<p>Talvez isso se deva a s\u00e9ries populares e de longa dura\u00e7\u00e3o na TV sobre a realeza brit\u00e2nica, como <a href=\"https:\/\/britishperioddramas.com\/lists\/the-best-tv-series-shows-to-watch-about-the-british-royal-family\/\">\u201cThe Crown\u201d<\/a>, terem nos convencido de que conhecemos os detalhes \u00edntimos dos membros da realeza \u2013 e pior, tenham nos levado a acreditar que devemos ligar para uma fam\u00edlia que \u00e9 um marcador simb\u00f3lico da grandeza imperial do passado.<\/p>\n<p>Mas para os que descendem daqueles que foram os alvos da conquista imperialista brit\u00e2nica, a rainha, seus ancestrais e seus descendentes representam o supremo imp\u00e9rio do mal.<\/p>\n<p>A \u00cdndia, meu pa\u00eds de origem, comemorou o 75\u00ba anivers\u00e1rio da sua <a href=\"https:\/\/www.npr.org\/2022\/08\/15\/1117484427\/india-is-celebrating-75-years-of-independence-from-britain\">independ\u00eancia<\/a> do dom\u00ednio brit\u00e2nico este ano. Meus pais nasceram antes da independ\u00eancia, numa na\u00e7\u00e3o ainda liderada pelos brit\u00e2nicos. Eu cresci ouvindo hist\u00f3rias sobre as aus\u00eancias de meu av\u00f4 de sua casa quando ele foi para a clandestinidade, quando estava sendo procurado por atividades sediciosas contra os brit\u00e2nicos. Ap\u00f3s a independ\u00eancia, em 1947, ele foi homenageado como um \u201clutador pela liberdade\u201d contra a monarquia.<\/p>\n<p>Apesar da popularidade e <a href=\"https:\/\/www.rottentomatoes.com\/tv\/the_crown\">aclama\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica<\/a> da s\u00e9rie \u201cThe Crown\u201d e outros filmes e programas do tipo, me conectei mais \u00e0 nova s\u00e9rie \u201cMs. Marvel\u201d, pelo simples motivo de abordar os horrores da <a href=\"https:\/\/newlinesmag.com\/first-person\/the-bloody-story-of-partition-made-ms-marvel\/\">parti\u00e7\u00e3o<\/a> da \u00cdndia e Paquist\u00e3o, um legado do imp\u00e9rio do mal pouco conhecido (nos EUA).<\/p>\n<p>Como a escritora paquistanesa <a href=\"https:\/\/newlinesmag.com\/first-person\/the-bloody-story-of-partition-made-ms-marvel\/\">Minna Jaffery-Lindemulder explica em um artigo para a <\/a><a href=\"https:\/\/newlinesmag.com\/first-person\/the-bloody-story-of-partition-made-ms-marvel\/\"><em>New Lines<\/em><\/a>, \u201cos brit\u00e2nicos alteraram as fronteiras da \u00cdndia e do Paquist\u00e3o de \u00faltima hora em 1947, antes de declarar a independ\u00eancia das duas na\u00e7\u00f5es, deixando os ex-s\u00faditos da coroa confusos sobre o lugar para onde deveria migrar para garantir sua seguran\u00e7a\u201d. Como resultado dessa medida, <a href=\"https:\/\/news.stanford.edu\/2019\/03\/08\/partition-1947-continues-haunt-india-pakistan-stanford-scholar-says\/\">15 milh\u00f5es de pessoas se sentiram for\u00e7adas a se mudar de um ponto do sul da \u00c1sia para outro<\/a>, num \u00eaxodo em massa que teve um n\u00famero estimado de mortos variando de meio milh\u00e3o a 2 milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>Hoje, aquelas <a href=\"https:\/\/www.nationalgeographic.com\/history\/article\/partition-of-india-and-pakistan-history-legacy?loggedin=true\">fronteiras contestadas<\/a>, insens\u00edvel e imprudentemente tra\u00e7adas em 1947 por oficiais brit\u00e2nicos a servi\u00e7o da coroa, continuam sendo uma fonte de tens\u00f5es latentes entre a \u00cdndia e o Paquist\u00e3o, que ocasionalmente explodem em guerras de fato.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o legado da monarquia brit\u00e2nica. O Reino Unido goza de uma distin\u00e7\u00e3o hedionda no <a href=\"https:\/\/www.guinnessworldrecords.com\/world-records\/most-countries-to-have-gained-independence-from-the-same-country\">Livro Guinness dos Recordes<\/a>, por ser o pa\u00eds do qual \u201co maior n\u00famero dos pa\u00edses [62] conquistaram a independ\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Pode-se argumentar que Elizabeth, que recebeu o trono e seu t\u00edtulo em 1952, n\u00e3o liderou um imp\u00e9rio de conquista agressivo e, em vez disso, presidiu uma institui\u00e7\u00e3o que, sob sua lideran\u00e7a, se tornou amplamente simb\u00f3lica e cerimonial em sua natureza. E, de fato, muitos fazem exatamente isso, referindo-se a ela, por exemplo, como um \u201c<a href=\"https:\/\/theelders.org\/news\/remembering-legacy-queen-elizabeth-ii\">exemplo de dec\u00eancia moral<\/a>\u201d.<\/p>\n<p>Rahul Mahajan, autor de <em>Full Spectrum Dominance<\/em> e <em>The New Crusade<\/em>, tem uma opini\u00e3o diferente. <a href=\"https:\/\/risingupwithsonali.com\/queen-elizabeth-and-the-ugly-legacy-of-british-empire\/\">Ele se refere a Elizabeth em uma entrevista<\/a> como \u201cuma pessoa moralmente banal com um trabalho que envolvia fazer coisas extremamente banais\u201d.<\/p>\n<p>Mahajan explica, dizendo que tratava-se de uma \u201cpessoa altamente privilegiada, que, sem ter de fazer nada, teve a oportunidade de influenciar, em algum grau, eventos mundiais, e que nunca fez nada particularmente not\u00e1vel, inovador ou perspicaz\u201d.<\/p>\n<p>Embora a maior parte dos 70 anos de Elizabeth no trono tenham sido gastos majoritariamente supervisionando um ostensivo desmoronamento do Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico em um mundo menos tolerante \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o, escraviza\u00e7\u00e3o e pilhagem imperial, alguns meses ap\u00f3s ela ter sido coroada rainha, os brit\u00e2nicos <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2022\/09\/09\/world\/africa\/queen-africa-british-empire.html\">reprimiam violentamente a Revolta dos Mau Mau no Qu\u00eania<\/a>. De acordo com uma <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2022\/09\/09\/world\/africa\/queen-africa-british-empire.html\">reportagem do <\/a><a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2022\/09\/09\/world\/africa\/queen-africa-british-empire.html\"><em>The New York Times<\/em><\/a> sobre como os cidad\u00e3os de na\u00e7\u00f5es africanas hoje t\u00eam pouca simpatia pela morte da monarca, a repress\u00e3o \u00e0 rebeli\u00e3o \u201clevou ao estabelecimento de um vasto sistema de campos de deten\u00e7\u00e3o e \u00e0 tortura, estupro, castra\u00e7\u00e3o e assassinato de dezenas de milhares de pessoas\u201d.<\/p>\n<p>Mesmo que Elizabeth n\u00e3o tenha sido respons\u00e1vel por dirigir esses horrores, eles foram realizados em seu nome. Ao longo das sete d\u00e9cadas em que ela exerceu o poder simb\u00f3lico, ela nunca se desculpou pelo que foi feito durante seu governo no Qu\u00eania \u2013 ou mesmo pelo que foi feito em nome de sua fam\u00edlia em dezenas de outras na\u00e7\u00f5es do Sul Global.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de se impressionar portanto que os povos pretos e pardos do mundo tenham expressado uma repulsa aberta pela bajula\u00e7\u00e3o coletiva de um legado t\u00e3o terr\u00edvel.<\/p>\n<p>A professora nigeriana <a href=\"https:\/\/www.inquirer.com\/news\/pennsylvania\/carnegie-mellon-professor-queen-elizabeth-death-tweet-genocide-nigeria--20220913.html\">Uju Anya<\/a>, da Carnegie Mellon University, est\u00e1 sendo duramente criticada por seu franco rep\u00fadio \u00e0 figura de Elizabeth, depois de ter postado em seu Twitter que ouviu \u201cque a monarca-chefe de um imp\u00e9rio genocida de ladr\u00f5es e estupradores est\u00e1 finalmente morrendo. Que a dor dela seja insuport\u00e1vel.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.politico.com\/news\/magazine\/2022\/09\/13\/for-black-britons-the-late-queen-is-the-number-one-symbol-of-white-supremacy-00056262\">Kehinde Andrews<\/a>, professor de estudos negros na Birmingham City University, escreveu no <em>Politico<\/em> que n\u00e3o consegue simpatizar com o desejo de seus colegas brit\u00e2nicos de lamentar a morte de Elizabeth, uma mulher que ele considerava \u201co s\u00edmbolo n\u00famero um da supremacia branca\u201d e uma \u201cmanifesta\u00e7\u00e3o da racismo institucional que temos que enfrentar diariamente\u201d.<\/p>\n<p>Elizabeth podia parecer uma anci\u00e3 benigna e sorridente que mantinha a propriedade esperada de um l\u00edder real. Mas ela trabalhou duro para preservar uma institui\u00e7\u00e3o que deveria ter morrido h\u00e1 muito tempo. Ela recebeu o trono ap\u00f3s seu tio, <a href=\"https:\/\/www.nzherald.co.nz\/lifestyle\/the-documents-that-revealed-duke-of-windsors-nazi-ties\/7RTNIFJA55SS6FLQ5B6CSFBPCM\/\">o duque de Windsor<\/a>, ter abdicado para se casar com uma estadunidense duas vezes divorciada. Tanto o casamento com uma divorciada quanto o fato do casal ser <a href=\"https:\/\/www.nzherald.co.nz\/lifestyle\/the-documents-that-revealed-duke-of-windsors-nazi-ties\/7RTNIFJA55SS6FLQ5B6CSFBPCM\/\">simpatizante do nazismo<\/a> marcaram um ponto baixo da realeza.<\/p>\n<p>\u201cCom esse tipo de palha\u00e7ada, a monarquia estava de fato em uma boa posi\u00e7\u00e3o para desaparecer\u201d, diz Mahajan. Mas foi Elizabeth quem \u201cresgatou a popularidade da monarquia.\u201d<\/p>\n<p>Mais que isso, Elizabeth preservou discretamente a fortuna familiar dos quais ela e seus descendentes se beneficiaram em um mundo p\u00f3s-colonial. \u201cUma coisa que ela poderia, e de certo deveria, \u00e9 ter feito e dito algo sobre a enorme propriedade real\u201d, diz Mahajan. Os analistas s\u00f3 conseguem <a href=\"https:\/\/www.cnn.com\/2022\/09\/13\/business\/prince-william-1-billion-inheritance\/index.html\">estimar<\/a> a riqueza da fam\u00edlia real (a Forbes <a href=\"https:\/\/www.washingtonpost.com\/world\/2022\/09\/13\/royal-family-wealth-charles-inheritance\/\">estima<\/a> o montante em 28 bilh\u00f5es de d\u00f3lares), ativos que incluem <a href=\"https:\/\/www.nbcnews.com\/news\/asian-america\/twitter-users-want-britain-return-kohinoor-diamond-s-know-turbulent-hi-rcna47284\">j\u00f3ias roubadas de ex-col\u00f4nias<\/a>, pe\u00e7as de arte caras e propriedade imobili\u00e1rias por toda a Gr\u00e3-Bretanha.<\/p>\n<p>O novo rei brit\u00e2nico, Charles III, agora herda os frutos do imp\u00e9rio do mal. De acordo com Mahajan, Charles \u201caparentemente est\u00e1 muito empenhado em pegar sua fortuna e investi-la para se tornar o mais rico poss\u00edvel\u201d. De acordo com o <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2022\/09\/13\/world\/europe\/king-charles-wealth.html\"><em>The New York Times<\/em><\/a>, \u201ccomo pr\u00edncipe, Charles usou incentivos fiscais, contas no exterior e investimentos imobili\u00e1rios sagazes para transformar uma let\u00e1rgica propriedade em um neg\u00f3cio de bilh\u00f5es de d\u00f3lares\u201d.<\/p>\n<p>O Cons\u00f3rcio Internacional de Jornalistas Investigativos descobriu em 2017 que tanto <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/news\/2017\/nov\/05\/revealed-queen-private-estate-invested-offshore-paradise-papers\">Elizabeth<\/a> quanto <a href=\"https:\/\/www.cbsnews.com\/news\/paradise-papers-revelation-ethics-accusation-prince-charles\/\">Charles<\/a> foram mencionados nos vazamentos dos \u201c<a href=\"https:\/\/www.icij.org\/investigations\/paradise-papers\/another-british-royal-found-offshore-connections\/\">Paradise Papers<\/a>\u201d, o que indica que eles escondiam seu dinheiro em para\u00edsos fiscais para evitar o pagamento de impostos.<\/p>\n<p>Espoliar os contribuintes e viver da riqueza roubada \u2013 o <em>modus operandi<\/em> original da monarquia parece ser central para o legado de Elizabeth, que ela agora passa para o filho (que tamb\u00e9m <a href=\"https:\/\/www.npr.org\/2022\/09\/15\/1123151802\/king-charles-iii-inheritance-tax\">n\u00e3o pagar\u00e1 qualquer imposto<\/a> sobre a heran\u00e7a da riqueza que ela deixou).<\/p>\n<p>A monarquia brit\u00e2nica, de acordo com Mahajan, \u201crepresenta no geral uma concess\u00e3o real \u00e0 ideia de que algumas pessoas simplesmente nascem melhores e mais importantes do que voc\u00ea, e que voc\u00ea deve olhar para elas de acordo\u201d.<\/p>\n<p>E acrescenta: \u201cEste \u00e9 um bom momento para que a popularidade desta institui\u00e7\u00e3o desapare\u00e7a\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A morte da Rainha Elizabeth II, a monarca que mais tempo ocupou seu posto na realeza brit\u00e2nica, gerou uma onda de fascina\u00e7\u00e3o global e deu luz a milhares de not\u00edcias ca\u00e7a-cliques sobre os detalhes de seu funeral. 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